O erro científico grosseiro do livro Perdido em Marte

O livro Perdido em Marte contém um erro científico que literalmente inviabiliza toda a trama, tornando-a improvável e nem um pouco convincente

A conquista de outros planetas é ainda um sonho que povoa o imaginário humano e que tem levado cientistas sérios a pensarem nos desafios envolvidos em uma jornada como esta. É natural que o planeta Marte seja o primeiro alvo em potencial para a chegada de pesquisadores. Além de ser um mundo razoavelmente próximo da Terra, o desafio da baixa temperatura da superfície pode ser vencido com relativa facilidade. O planeta Vênus, ao contrário, é tão quente que pode derreter equipamentos, tornando sua conquista muito perigosa.

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Mas a temperatura é apenas um dos vários desafios a serem enfrentados. No livro Perdido em Marte, do autor Andy Weir, o personagem Mark Watney é um botânico da NASA que foi dado como morto e, por isso, esquecido no planeta vermelho. Como ele não pode se comunicar com a Terra, sua meta é sobreviver 1425 dias até a vinda da próxima missão tripulada. Mas não há suprimentos, em especial a comida, para tanto tempo.

Uma obra com esta pretensão deveria ser muito bem estruturada e contar com conhecimentos muito sólidos de biologia, física e química por parte do autor. No entanto, o que podemos observar em Perdido em Marte é uma sucessão de pequenos erros científicos que orbitam um erro gigantesco. Este erro gigantesco faz com que a história do livro se torne inverossímil. Vamos entender aos poucos.

Vou citar antes dois pequenos erros conceituais, mas que dão uma boa ideia de como um autor precisa realmente conhecer o que está escrevendo.

Um deles é bastante estranho e diz respeito ao que fazer se alguém morrer em Marte. Segundo o livro, o cadáver deve permanecer por lá. Diz o narrador: “se um tripulante morre em Marte, ele fica em Marte”. Em uma missão real, isto jamais aconteceria, e não por motivos sentimentais. É uma questão ecológica. Pode ou não haver vida microscópica em Marte. Se um cadáver for deixado lá, ele vai contaminar o ambiente com as bactérias que existem em nosso corpo. Mesmo que o cadáver seja lacrado dentro de um container hermético, o risco de o invólucro se romper por causa dos ventos fortíssimos de Marte, ou mesmo de ser atingido por um meteorito ou um abalo sísmico decorrente da queda de um asteroide faria com que vida terráquea contaminasse Marte, tornando impossível qualquer estudo posterior a respeito da vida microbiana naquele planeta.

O outro erro é a maneira como o personagem encontrou para transformar o solo marciano em solo cultivável. Mark Watney usou suas próprias fezes para isso. As bactérias presentes nas fezes transformariam o solo estéril de Marte e algo onde as batatas pudessem crescer (dentro do habitat onde ele vive). O problema está no que o personagem diz a respeito dessas bactérias. Segundo ele “os dejetos humanos contêm patógenos que, como você já deve ter adivinhado, infecta os seres humanos. Mas isso não é um problema para mim. Os únicos patógenos nestes dejetos são os que eu já tenho”. Sem considerar o erro de concordância da primeira frase, existe um erro científico sério aqui. Se uma pessoa comer as próprias fezes, mesmo se for apenas uma quantidade muito pequena, as chances de ela ter problemas intestinais como diarreia, por exemplo, são muito grandes. É difícil saber o que o autor entende por “patógenos”. Há várias espécies de bactérias e fungos encontrados normalmente nas fezes. Algumas delas podem causar doenças se elas proliferarem demais, e isto pode acontecer pela ingestão de fezes. Portanto, infectar-se com as próprias fezes é sim um problema para o nosso caro astronauta botânico.

Esses detalhes estão longe de ser o maior problema científico do livro. O pior deles está relacionado com um gancho vital da trama. Mark Watney diz que precisa produzir calorias para sobreviver, afinal, segundo ele, não há comida suficiente para os 1425 dias que ele vai ficar perdido em Marte. Aliás, seu experimento de criar solo cultivável com as próprias fezes tem o objetivo de plantar batatas. As batatas que foram convenientemente enviadas não congeladas para Marte serviriam como matrizes para a sua horta marciana. Nas palavras do personagem narrador, “só preciso de calorias de qualquer tipo para sobreviver”. Mas, depois do solo, ele precisou sintetizar água por meio de uma reação química explosiva que quase o matou, afinal as batatas precisam de muita água para crescer. Em resumo, uma cadeia de acontecimentos dirige o livro, e ela tem como gatilho o fato de o personagem precisar de carboidratos para conseguir calorias.

De acordo com o narrador, há um estoque infinito de polivitamínicos (que conveniente!) e “há comida suficiente para alimentar 6 pessoas durante cinquenta dias”. Como Mark está sozinho lá, então a comida deve durar trezentos dias, de acordo com as contas dele. Portanto, ele precisaria produzir alimento para mais 1125 dias. No livro, está escrito: “Falta alimento para cerca de mil dias. E não tenho um plano para obtê-lo”.

Será?

Existe uma frase no livro que o desconstrói quase por completo. Ei-la:

“E em cada embalagem de comida há cinco vezes mais proteínas que o mínimo necessário, portanto o racionamento cuidadoso das porções dá conta das minhas necessidades proteicas durante pelo menos quatro anos.”

Vamos direto ao ponto.

De acordo com as melhores tabelas nutricionais, precisamos de um mínimo de 0,8 g proteína/kg peso corpóreo/dia. Se imaginarmos que o personagem Mark tem 70 kg, então a quantidade mínima que ele deve ingerir por dia são 56 g de proteína.

O narrador diz que cada embalagem de comida tem cinco vezes mais proteínas que o mínimo necessário, então cada embalagem tem 56 g x 5, que é igual a 280 g de proteína, sem contar os carboidratos e gorduras que uma ração balanceada da NASA deve ter.

O que o livro nos diz é que uma porção de comida tem o equivalente à carne de 5 hambúrgueres, já que cada hambúrguer tem 56 g de peso. Aqui estamos falando de hambúrgueres sem o pão, o queijo e o alface. Apenas a carne.

“Vou começar a racionar alimento imediatamente. As refeições já são bem básicas”. Cinco hambúrgueres são realmente bem básicos!

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Peça pelo número!

Agora vamos avançar o raciocínio e entender que os astronautas, assim como qualquer um, fazem 3 refeições ao dia. O autor do livro não entra em muitos detalhes neste ponto, porém podemos concluir pela lógica que cada astronauta tinha disponível para si uma quantidade de 840 gramas de proteína ao dia, já que 280 x 3 = 840. Isto equivale a 15 hambúrgueres por dia, quantidade suficiente para transformar Mark Watney em uma nova lua de Marte.

Voltemos às calorias. O narrador dá a nítida impressão de que só obtemos calorias por meio de carboidratos, o que não é correto. Cada grama de carboidrato gera 4 calorias. Os lipídios geram 9 calorias por grama ingerida. Mas, e as proteínas?

O assunto é complexo. Nosso corpo usa as proteínas de várias maneiras. Os aminoácidos que constituem as proteínas podem ser usados para fazer nossas próprias proteínas, construindo músculos, repondo enzimas, gerando hormônios etc. Além disso, os aminoácidos também podem ser usados para produzir glicose em um processo chamado gliconeogênese.

Alguns tecidos e órgãos não podem ficar sem glicose. É o caso do cérebro. Se a quantidade de glicose em nosso sangue começa a diminuir, sentimos fome. Se não comemos, o corpo usa suas reservas de glicogênio do fígado para repor a glicose no sangue. Se, ainda assim, não nos alimentarmos, a gliconeogênese entra em ação. Em resumo, nossas proteínas são usadas para gerar a preciosa glicose. É uma condição extrema, mas comum em quem faz jejum prolongado.

Portanto, as calorias que o astronauta Mark precisava para sobreviver estavam, em sua maior parte, na imensa quantidade de proteína que o autor colocou à disposição do personagem.

Vamos a mais cálculos. Se cada pessoa faz 3 refeições ao dia, e há refeições para 6 pessoas, temos 18 refeições disponíveis ao dia. Se as porções de refeição estavam planejadas para cinquenta dias, e há 18 delas por dia, então temos um total de 900 refeições.

Cada refeição tem 280 g de proteína, então, multiplicando por 900, temos 252.000 g de proteína, ou 252 quilos de hambúrgueres.

“Boa sorte, batatinhas! Minha vida depende de vocês”. Só se for para comer com os hambúrgueres.

Quantas calorias isso geraria?

A pergunta é difícil de responder porque, como eu já disse, o metabolismo das proteínas é complexo. Para fins de cálculo, vamos supor que toda essa proteína fosse convertida em calorias. Cada grama de proteína é capaz de gerar 4 calorias, a mesma quantidade energética das batatas que Mark plantou. Então, 252.000 x 4 = 1.008.000 calorias.

Se o personagem obtivesse calorias apenas da quantidade imensa de proteína que ele mesmo disse que tem à sua disposição, ele poderia sobreviver por 672 dias com um aporte de 1500 calorias/dia. Mas ele não tem apenas as proteínas para sobreviver. Há ainda os carboidratos e a gordura que cada pacote de refeição deve conter. Eles devem fornecer calorias extras que não podemos calcular porque o autor não revela o que tinha em cada refeição, além das proteínas.

Quantos dias ele sobreviveria se fizesse um consumo baixo de calorias, suficiente para sobreviver? Digamos que ele consiga viver com 1100 calorias/dia. Considerando apenas a proteína disponível, ele sobreviveria por 916 dias, e não apenas os trezentos dias que ele calculou. E vejam que consideramos apenas a proteína. Isto, mais os outros componentes da refeição, e mais uma pequena quantidade de batatas que ele cultivasse (sem a loucura de sintetizar água para regar 126 metros quadrados de horta) seriam suficientes para que o personagem Mark Watney sobrevivesse até que a próxima missão retornasse a Marte. É uma pena que a coluna vertebral do livro seja justamente essa busca desesperada por um alimento que ele não precisava. Afinal, segundo nossos cálculos, durante os 1425 dias em que ele ficaria perdido em Marte, ele teve disponível uma quantidade diária de pouco mais do que três hambúrgueres.

“Fazendo as contas, tudo isso não vai evitar que eu morra de fome”. Refaça as contas, colega.