A Qualidade dos Escritores Independentes

Pode parecer mentira, mas existem “escritores” que acham que não precisam escrever português corretamente.

Descobri isso quando publiquei uma tirinha da Ana Leitora em uma rede social (que, para todos os efeitos, vou chamar de Tracelook, a rede social que aparece no meu livro As Ruínas da Internet). Na tirinha, a personagem Paty Book diz que escritor não tem obrigação de escrever sem erros ortográficos e gramaticais, porque depois vem o revisor da editora e corrige tudo. A Ana, que não leva desaforo pra casa e perde a amizade, mas não a cutucada, responde que um pedreiro também não tem obrigação de construir uma casa bem feita, afinal, depois vem o pintor e corrige tudo.

olavo_bilac_Rogério_Pietro

Isso é óbvio para qualquer um que tenha o mínimo de capacidade intelectual. A qualidade final de um livro, por mais que ele passe por mil revisores, depende do alicerce. É como uma casa: se começa torta, sem uma boa fundação, com paredes fora do esquadro, nenhum pintor será capaz de impedir que a construção fique cheia de rachaduras em pouco tempo. A mesma coisa é um livro. Se estiver cheio de erros, o máximo que os revisores poderão fazer é passar uma maquiagem no texto, sem contudo conseguirem esconder os defeitos basais que sempre influenciam no estilo.

O pior de tudo, porém, é quando o “escritor” acredita que seu “livro” não precisa sequer passar por uma revisão, que vale tudo, que ele escreve da maneira que ele quiser. E, sim, esse tipo de “escritor” existe, por mais que pareça piada. Ele “publica” seus “livros” em plataformas gratuitas que não têm qualquer compromisso com a qualidade da escrita, afinal o próprio público-alvo não tem a base escolar suficiente para criticar o trabalho. Basta ver a gramática nas redes sociais e nos aplicativos de comunicação escrita via celular para entender que o leitor mediano não está apto a fornecer críticas construtivas a respeito do português de um autor independente.

Ao publicar a tirinha da Ana Leitora, descobri que esse tipo de “escritor” existe em número maior do que Olavo Bilac seria capaz de suportar. Seria normal pensar que quem se propõe a escrever um livro queira dar a ele o mínimo de qualidade gramatical e ortográfica. Porém, descobri que a anormalidade existe, pulsa e estende seus tentáculos abertamente, mesmo correndo o risco real de passar ridículo. Resumindo: há quem pense que o normal é escrever tudo errado. E, pior do que isso, eles pensam que são escritores.

A língua portuguesa não é fácil. Quem diz o contrário quer se exibir. Escrever é uma arte que depende de muito estudo e treino exaustivo. Por isso é normal cometer um ou outro erro de gramática e de ortografia. Em se tratando de um escritor de verdade, é para isso que serve o revisor. Ele corrige os deslizes e acerta as arestas. O que não se pode conceber é um texto repleto de erros básicos como confundir “mas” com “mais”, escrever uma pergunta sem uso do ponto de interrogação, colocar três verbos, quatro sujeitos e dois predicados na mesma frase, sem vírgula nenhuma pelo caminho. Não, isso é inconcebível para alguém que diz que “escreveu um livro”.

Eu me lembro da primeira vez que decidi ler um ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Eu queria saber do que é feito um Nobel. Tive a felicidade de ler a obra O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. O livro é simples em sua proposta. O enredo é quase banal: um velho que sai de barco para pescar um espadarte (um tipo de peixe espada). E só. O livro é isso… E, apesar disso, o texto é tão bem escrito, tão profundo e envolvente que faz o leitor entrar no barquinho e seguir viagem com o velho Santiago. Cada palavra tem seu lugar, cada colocação do autor tem um sentido e o poder de atrair para dentro daquele livro poderoso. Foi então que eu entendi o que é um Nobel de Literatura.

É impossível imaginar que Hemingway tenha escrito tudo às pressas, sem se preocupar em cometer uma maré de erros. Também não faria sentido acreditar que o revisor transformou um monte de palavras mal colocadas na obra-prima que é O Velho e o Mar. Assim como um pintor não consegue esconder uma fundação mal feita em uma casa, um revisor não é capaz de transformar uma sopa de ideias tortas em uma obra de arte literária. Então, imagine o que andam publicando por aí sem a ajuda de um revisor.

As tais plataformas de autopublicação se tornam cada vez mais conhecidas e usadas por pessoas que têm o sonho de se tornarem grandes escritores. Pode ser um bom exercício de escrita, uma forma de mostrar seus rascunhos ou, mais raramente, de publicar livros que merecem ser chamados assim. No entanto, o que não se pode admitir é que alguém queira ser chamado de “escritor” pensando que não tem a obrigação de escrever o melhor que puder, preocupado com a qualidade da gramática, da ortografia e do estilo. Essas três entidades andam juntas, como vimos no caso de Hemingway.

Infelizmente, o título de autor independente acaba sendo manchado por esse tipo de atitude irresponsável. Para muitos, o termo é sinônimo de falta de qualidade. Essa crença nasce por causa daqueles “escritores” que não sabem e não querem saber escrever.

O que tem acontecido é que as pessoas têm preguiça de estudar e pouca preocupação com a autocrítica. No mundo fantasioso que criam para si mesmas, elas preferem crer que a maneira como estão escrevendo é a certa, e quem as critica as está julgando cruelmente. Pode ser o mal de uma geração que não aceita crítica, que se machuca e se sente ofendida até pelo vento. Talvez seja isso. Não vejo outra explicação.

Resta àqueles que procuram se aperfeiçoar o humor ácido da nossa amiga Ana Leitora.

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